CUT combate o racismo com formação política nas ruas de São Paulo

Militância esteve na Praça do Patriarca interagindo com a população

Escrito por: Vanessa Ramos - CUT São Paulo • Última modificação: 17/05/2018 - 01:24 • Publicado em: 15/05/2018 - 16:47 Escrito por: Vanessa Ramos - CUT São Paulo Publicado em: 15/05/2018 - 16:47 Última modificação: 17/05/2018 - 01:24

Dino Santos

Nesta terça-feira (15), a CUT São Paulo foi às ruas do centro da capital paulista para falar sobre os 130 anos da abolição inacabada, completados neste mês, e dizer que basta de racismo.

“Lembramos em primeiro lugar os nossos ancestrais que foram trazidos à força nos navios negreiros da África para o Brasil para serem escravizados, para trabalharem o dia todo debaixo do chicote e sob maus tratos. Essa história real precisa ser contada já que sofremos até hoje com as consequências do racismo, dessa violência e da falsa abolição que jogou nossos antepassados nas ruas, sem moradia, sem comida, sem dignidade, sem nada”, afirmou no início do ato a secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, Rosana Aparecida da Silva, lembrou.

Logo depois da fala de Rosana, em referência à desigualdade racial que sobreviveu após a assinatura da Lei Áurea, de maio de 1888, a Praça do Patriarca, onde a militância se reunia, se transformou numa aula pública com depoimentos de dirigentes sindicais e da população que passava pelo local.

Como foi o caso de Maria Silva* que, a caminho do trabalho, de uniforme, percorria as ruas do centro quando se deparou com a atividade organizada pela CUT-SP. Mulher negra, moradora da zona leste de São Paulo, mãe de três filhos, ela relatou, aos prantos, o sofrimento por ter visto a prisão de um de seus filhos.

“Faz um ano e um mês que prenderam meu filho de forma injusta. Prenderam um inocente. Foi no dia em que ele tinha passado na entrevista de emprego para a empresa Italínea, já que ele sempre amou fazer móveis planejados. Ele iria me contar a novidade quando eu pedi a ele que antes fosse resolver uma situação pessoal para mim”, disse.

Foi no caminho, conta Maria, que seu filho, um jovem negro de 34 anos, foi enquadrado por policiais militares, na periferia da capital. Na mesma hora, o outro filho de Maria correu até em casa para contar o que havia acontecido, como ela explica.Dirigentes CUTistas acompanham depoimento de mulher que teve filho preso injustamente - Foto: Dino SantosDirigentes CUTistas acompanham depoimento de mulher que teve filho preso injustamente - Foto: Dino Santos

“Fui até a rua e questionei o policial por que estavam prendendo o meu filho? Ele disse que levariam ele para depor por causa do roubo de um carro. Meu filho, um homem trabalhador, que nunca se envolveu com nada. Ninguém buscava pelo meu filho, pegaram ele ao acaso, no meio da rua. Levaram ele para a delegacia e o algemaram sem provas. Passado um tempo, a testemunha do assalto disse na audiência que não reconhecia meu filho e, mesmo assim, o promotor de justiça, Alexandre Demétrius Pereira (do Ministério Público do Estado de São Paulo), o acusou de ladrão, mesmo sem nenhuma prova. E a juíza foi lá e condenou”, explica.

O filho de Maria, réu de primeira instância, foi levado ao regime fechado para a Penitenciária Osvaldo Cruz, que fica a 8 horas de São Paulo. De acordo com dados da Secretaria de Administração Penitenciária, com capacidade para 844 detentos, o presídio, superlotado, tem hoje 1.948 sentenciados.

“Não foi só com meu filho que isso aconteceu. Eu viajo oito horas para ir ver meu filho, uma vez por mês, e, nessas andanças, eu conheci muitas mães na mesma situação. E é por causa da cor da gente que isso acontece. São os pretos que mais passam por isso no Brasil”, revolta-se Maria que, aos 53 anos, vê sua família ser desestruturada pela decisão tomada pela Justiça paulista.

Ao ouvir o depoimento desta mãe, o vice-presidente da CUT-SP, Valdir Fernandes, o Tafarel, lembrou a chacina que vitimou 18 pessoas em Barueri e Osasco, em agosto de 2015, fato que teve repercussão internacional.Edson é engraxate nas ruas do centro da capital - Foto: Secom CUT-SPEdson é engraxate nas ruas do centro da capital - Foto: Secom CUT-SP

“A maioria desses jovens mortos era negra. Não deixaremos de cobrar das autoridades brasileiras o esclarecimento das mortes e a punição dos assassinos. É preciso dar um basta à matança de negros pobres em São Paulo”, afirmou.

Racismo e resistência

Aos 35 anos, pai de dois filhos, de 4 e 6 anos, o engraxate Edson Miranda da Silva, conhecido nas ruas do centro da capital como ‘Edson engraxate’, relatou que, antes de estar desempregado, optou por engraxar sapatos para conseguir pagar as contas.

“Era uma forma de complementar a renda da família, mas logo que fiquei desempregado, há quatro anos, e não consegui mais trabalho numa empresa, eu continuei engraxando sapato. O que era um bico virou meu trabalho oficial”, disse.

Morador de São Miguel Paulista, ele gasta uma hora e meia para chegar ao centro. Durante o ato, ele se lembrou de uma história de infância. “Na escola, quando era jovem, a molecada me chamava de ‘macaco’. Eu me revoltava com isso e partia pra cima. Só que eles me provocaram muito. Mas, quando eu reagia para me defender, ainda era tachado de agressivo”, falou à reportagem da CUT-SP. “Quando vejo racismo contra alguém me dá uma pontada no coração porque eu também sou negro”, concluiu.

Para a aposentada Geni Aparecida de Oliveira, 57 anos, é importante resgatar a memória dos antepassados que resistiram a um Brasil racista e violento. “Minha vó era neta de escravizados. Ela passou a vida inteira trabalhando em troca de comida. Escravizada a vida inteira, quando tinha uma idade mais avançada, ela pegou uma tuberculose. E morreu sozinha, sendo enterrada como indigente”, lembra.

Segundo, Geni, que aos 9 anos de idade virou empregada doméstica e nunca mais parou de trabalhar, sua mãe também teve um caminho difícil. “Foi uma longa estrada para chegar até aqui. E, certamente, sou uma nova geração fruto dessa resistência. Assim como minha avó e minha mãe, eu nunca desisti.”

Geni foi doméstica, metalúrgica e servente de escola até se aposentar. Mas resolveu estudar durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que investiu em política publicas de reparação e de igualdade. 

“Tentei por seis anos seguidos o ProUni (Programa Universidade para Todos), até que consegui entrar na faculdade para cursar Letras, aos 51 anos. Hoje estou me pós-graduando e tenho muitos sonhos pela frente”, emociona-se.

*Maria Silva é um nome fictício para preservar a identidade da entrevistada. 

Título: CUT combate o racismo com formação política nas ruas de São Paulo, Conteúdo: Nesta terça-feira (15), a CUT São Paulo foi às ruas do centro da capital paulista para falar sobre os 130 anos da abolição inacabada, completados neste mês, e dizer que basta de racismo. “Lembramos em primeiro lugar os nossos ancestrais que foram trazidos à força nos navios negreiros da África para o Brasil para serem escravizados, para trabalharem o dia todo debaixo do chicote e sob maus tratos. Essa história real precisa ser contada já que sofremos até hoje com as consequências do racismo, dessa violência e da falsa abolição que jogou nossos antepassados nas ruas, sem moradia, sem comida, sem dignidade, sem nada”, afirmou no início do ato a secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, Rosana Aparecida da Silva, lembrou. Logo depois da fala de Rosana, em referência à desigualdade racial que sobreviveu após a assinatura da Lei Áurea, de maio de 1888, a Praça do Patriarca, onde a militância se reunia, se transformou numa aula pública com depoimentos de dirigentes sindicais e da população que passava pelo local. Como foi o caso de Maria Silva* que, a caminho do trabalho, de uniforme, percorria as ruas do centro quando se deparou com a atividade organizada pela CUT-SP. Mulher negra, moradora da zona leste de São Paulo, mãe de três filhos, ela relatou, aos prantos, o sofrimento por ter visto a prisão de um de seus filhos. “Faz um ano e um mês que prenderam meu filho de forma injusta. Prenderam um inocente. Foi no dia em que ele tinha passado na entrevista de emprego para a empresa Italínea, já que ele sempre amou fazer móveis planejados. Ele iria me contar a novidade quando eu pedi a ele que antes fosse resolver uma situação pessoal para mim”, disse. Foi no caminho, conta Maria, que seu filho, um jovem negro de 34 anos, foi enquadrado por policiais militares, na periferia da capital. Na mesma hora, o outro filho de Maria correu até em casa para contar o que havia acontecido, como ela explica. “Fui até a rua e questionei o policial por que estavam prendendo o meu filho? Ele disse que levariam ele para depor por causa do roubo de um carro. Meu filho, um homem trabalhador, que nunca se envolveu com nada. Ninguém buscava pelo meu filho, pegaram ele ao acaso, no meio da rua. Levaram ele para a delegacia e o algemaram sem provas. Passado um tempo, a testemunha do assalto disse na audiência que não reconhecia meu filho e, mesmo assim, o promotor de justiça, Alexandre Demétrius Pereira (do Ministério Público do Estado de São Paulo), o acusou de ladrão, mesmo sem nenhuma prova. E a juíza foi lá e condenou”, explica. O filho de Maria, réu de primeira instância, foi levado ao regime fechado para a Penitenciária Osvaldo Cruz, que fica a 8 horas de São Paulo. De acordo com dados da Secretaria de Administração Penitenciária, com capacidade para 844 detentos, o presídio, superlotado, tem hoje 1.948 sentenciados. “Não foi só com meu filho que isso aconteceu. Eu viajo oito horas para ir ver meu filho, uma vez por mês, e, nessas andanças, eu conheci muitas mães na mesma situação. E é por causa da cor da gente que isso acontece. São os pretos que mais passam por isso no Brasil”, revolta-se Maria que, aos 53 anos, vê sua família ser desestruturada pela decisão tomada pela Justiça paulista. Ao ouvir o depoimento desta mãe, o vice-presidente da CUT-SP, Valdir Fernandes, o Tafarel, lembrou a chacina que vitimou 18 pessoas em Barueri e Osasco, em agosto de 2015, fato que teve repercussão internacional. “A maioria desses jovens mortos era negra. Não deixaremos de cobrar das autoridades brasileiras o esclarecimento das mortes e a punição dos assassinos. É preciso dar um basta à matança de negros pobres em São Paulo”, afirmou. Racismo e resistência Aos 35 anos, pai de dois filhos, de 4 e 6 anos, o engraxate Edson Miranda da Silva, conhecido nas ruas do centro da capital como ‘Edson engraxate’, relatou que, antes de estar desempregado, optou por engraxar sapatos para conseguir pagar as contas. “Era uma forma de complementar a renda da família, mas logo que fiquei desempregado, há quatro anos, e não consegui mais trabalho numa empresa, eu continuei engraxando sapato. O que era um bico virou meu trabalho oficial”, disse. Morador de São Miguel Paulista, ele gasta uma hora e meia para chegar ao centro. Durante o ato, ele se lembrou de uma história de infância. “Na escola, quando era jovem, a molecada me chamava de ‘macaco’. Eu me revoltava com isso e partia pra cima. Só que eles me provocaram muito. Mas, quando eu reagia para me defender, ainda era tachado de agressivo”, falou à reportagem da CUT-SP. “Quando vejo racismo contra alguém me dá uma pontada no coração porque eu também sou negro”, concluiu. Para a aposentada Geni Aparecida de Oliveira, 57 anos, é importante resgatar a memória dos antepassados que resistiram a um Brasil racista e violento. “Minha vó era neta de escravizados. Ela passou a vida inteira trabalhando em troca de comida. Escravizada a vida inteira, quando tinha uma idade mais avançada, ela pegou uma tuberculose. E morreu sozinha, sendo enterrada como indigente”, lembra. Segundo, Geni, que aos 9 anos de idade virou empregada doméstica e nunca mais parou de trabalhar, sua mãe também teve um caminho difícil. “Foi uma longa estrada para chegar até aqui. E, certamente, sou uma nova geração fruto dessa resistência. Assim como minha avó e minha mãe, eu nunca desisti.” Geni foi doméstica, metalúrgica e servente de escola até se aposentar. Mas resolveu estudar durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que investiu em política publicas de reparação e de igualdade.  “Tentei por seis anos seguidos o ProUni (Programa Universidade para Todos), até que consegui entrar na faculdade para cursar Letras, aos 51 anos. Hoje estou me pós-graduando e tenho muitos sonhos pela frente”, emociona-se. *Maria Silva é um nome fictício para preservar a identidade da entrevistada.